Ensino da Veterinária no Exército
O Exército brasileiro desempenhou um papel histórico na criação e no desenvolvimento da profissão
As atividades veterinárias no Brasil foram iniciadas no Rio de Janeiro, uma situação peculiar.
No início do século, o Rio era uma cidade onde o transporte por tração animal tinha uma importância vital.
Existiam inúmeras estrebarias, diversos estábulos e, evidentemente, a aproximação entre homens e animais era intensa. Com esse contato estreito, como era de se esperar, as zoonoses adquiriram grande importância. Um bom exemplo é o mormo, uma doença de cavalo transmissível ao homem.
Os carroceiros e os soldados da área de cavalaria, que pela sua própria função, tinham muito contato com os cavalos, se contaminavam e desenvolviam uma pneumonia grave.
"Foi com essa preocupação de saúde pública que nasceu a medicina veterinária no Brasil".
Na ocasião, foi chamado o então capitão médico João Moniz Barreto de Aragão para que estudasse esse quadro. Ele concluiu que seria necessário formar médicos veterinários para poder "intervir na cadeia biológica dessas doenças em com essa idéia em mente, viajou para a França onde visitou as escolas de veterinária de Alfort e de Lyon e voltou com a convicção da necessidade de criar, no Brasil, uma escola de veterinária".
Em 17 de junho de 1914, foi criado o Curso Prático de Veterinária no 3º Grupo de Obuses, atual 21º Grupo de Artilharia de Campanha, em São Cristóvão (RJ).
A Escola seguiu seu curso e "produziu uma quantidade enorme de médicos militares que se irradiaram por todo o Brasil, levando aos mais distantes rincões a doutrina da veterinária militar, a doutrina de saúde pública, de clínica médica aos animais das Companhias, de emprego militar, apoiando, também os militares em relação aos seus animais de companhia e realizando a inspeção dos alimentos".
Embora bem sucedida, a Escola de Veterinária do Exército foi extinta em 1974 (pelo Decreto nº 74.475 foi extinto o Serviço de Veterinária).
Em 1991, novos veterinários ingressaram no Exército através da Escola de Administração.
"O objetivo da veterinária militar é, primordialmente, apoiar a força terrestre no cumprimento da sua missão de proteger a pátria de agressões externas, manter a ordem interna e fazer cumprir a Constituição".
A veterinária está integrada dentro do Serviço de Saúde cumprindo as seguintes funções: (1) preservar os efetivos animais de emprego militar, basicamente cães de guerra e os cavalos que ainda são empregados em unidades de representação e treinamento; (2) realizar a inspeção de produtos, não apenas os de origem animal mas também os de origem vegetal e mineral; (3) preservar a saúde pública, integrando uma equipe multidisciplinar que inclui médicos e odontologistas.
Esse trabalho compreende a pesquisa das zoonoses, que são sempre muito mais graves em situação de campanha; (4) o controle de animais que são abandonados, no teatro de operações, "e isso inclui não apenas animais domésticos como também animais selvagens que ficam completamente desorientados e há, também, os animais dos zoológicos, que fogem para as cidades. Cabe ao veterinário militar controlar situações desse tipo"; (5) "Outra missão é a pesquisa. Aqui no Instituto de Biologia do Exército, por exemplo, desenvolvemos um trabalho de pesquisa e produção de imunobiológicos e de soros antiofídicos".
O Exército adapta o profissional oriundo das faculdades, através do Curso de Formação de Oficiais Veterinários, que abrange tanto as condições de paz como as de campanha.
"Como oficial do exército, o profissional precisará ter conhecimentos básicos próprios do militar. Para isso, é preciso que aprenda diversas matérias de cunho eminentemente militar como, por exemplo, administração militar, armamento, munição e tiro, defesa química, biológica e nuclear, dinâmica de grupo, endemias, higiene e profilaxia, legislação técnica, ordem unida, psicologia aplicada, segurança interna, serviço de saúde em campanha, sistema de instrução militar e treinamento físico".
Além disso, há o estudo da inspeção de alimentos que inclui os de origem vegetal e mineral que não estão incluídos no currículo da medicina veterinária civil, e também estágios numa unidade de cavalaria e numa seção de cães de guerra.
O Curso se divide em duas partes: (a) Curso Básico de Formação Militar e (b) Curso básico de Formação de Oficiais Veterinários (propriamente dito), que ainda é ministrado em Salvador (BA) mas que, a partir de 1997, passará a ser realizado na Escola de Saúde do Exército que fica na Rua Moncorvo Filho, nº 44, no Bairro de Benfica, no Rio de Janeiro. O telefone é: 264-3146.
Por enquanto, a Escola não oferece alojamento mas fornece café da manhã, almoço, jantar e vestiário. E, além disso, ajuda na compra dos uniformes.
O vencimento de primeiro-tenente anda em torno de R$ 1 mil.
O próximo concurso (1997) já será feito pela Escola de Saúde do Exército sobre as matérias que serão divulgadas proximamente.
"Nós temos uma grande oportunidade que o médico veterinário civil, geralmente, não tem. É que frequentamos a região amazônica, onde permanecemos por períodos de até dois anos. E lá o campo para pesquisa é muito rico e oferece opções extremamente interessantes no campo científico. As chances de obter informações para alimentar o banco de dados do Serviço de Saúde com observações, inclusive originais, são muitas. Há grande interesse em levantamentos epidemiológicos das áreas frequentadas pelas tropas com o objetivo de defender a sua saúde aumentando, consequentemente, a eficiência".
Ao término do Curso, o aluno é confirmado como oficial veterinário e poderá servir em qualquer parte do território nacional progredindo até atingir o posto máximo de coronel.
No decorrer da carreira, ele faz cursos de aperfeiçoamento e de especialização e o Exército dá oportunidade para que ele obtenha o grau de mestrado e até mesmo de doutorado para os que se destacarem no curso de mestrado.
João Moniz Barreto de Aragão é o patrono do Serviço Veterinário do Exército.
Nascido em 1874, em Santo Amaro, à época capital da província da Bahia, a ele o País deve uma lista de realizações da maior importância, como a criação e a instalação da Escola de Veterinária do Exército; o estudo do mormo no homem e a sobrevivência do rebanho equino brasileiro; o Serviço de Defesa Sanitária Animal no Brasil; a fundação da Sociedade Médico-Cirúrgica Militar (em 17 de agosto de 1915), a distribuição de água potável aos exércitos em marcha e operações e dezenas de obras, trabalhos técnicos, teses, comissões e encargos militares.
Moniz de Aragão não era veterinário, mas sim um médico iluminado que criou, no exército do início do século, um quadro de especialistas em patologia animal. Uma idéia inédita de um homem de visão que deixou de lado o caminho mais fácil de trabalhar em Manguinhos, na equipe de Oswaldo Cruz, para ir cuidar, partindo praticamente do nada, da saúde da cavalhada militar e da melhora das condições sanitárias dos quartéis.
Por ser uma zoonose e pelo fato da importância transcendental do cavalo naquela época, era preciso dar especial atenção ao mormo e foi exatamente essa um das suas importantes obras levadas a cabo com a colaboração de missões de veterinários franceses que aqui estiveram, em 1913, para trabalhar com o nosso cientista.
Foi muito ampla a colaboração de Moniz de Aragão para a ciência brasileira.
Encarregado pelo presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, Moniz de Aragão organizou, para o Ministério da Agricultura, o Serviço de Defesa Sanitária Animal e de Produtos de Origem Animal.
Sob o ponto de vista da economia nacional, esse trabalho de Moniz de Aragão teve logo uma repercussão prática: o Brasil, podendo garantir a qualidade dos seus produtos de origem animal, passou, em pouco tempo, a ser um dos maiores exportadores mundiais de carne bovina congelada e derivados, tanto para a Europa, grandemente necessitada por causa da I Guerra Mundial, como para os Estados Unidos.
O patrono da veterinária militar brasileira morreu cedo, aos 47 anos de idade, no posto de tenente-coronel. Mas deixou uma semente que germinou, cresceu e frutificou. A Veterinária Militar prosseguiu firme e forte nos mais variados campos com especial destaque para o estudo das zoonoses.