Animais silvestres: uma especialidade


A história da humanidade é fascinante, porém, conforme já dito diversas vezes, é repetitiva. Isto é: se as experiências vividas não forem estudadas e analisadas, os erros e acertos se repetirão. E não haverá evolução, nem progresso. Como o aprendizado humano é sistematicamente difícil e penoso, a análise dos fatos históricos (causas e conseqüências) é o suporte de aprendizagem mais amena e do progresso seguro.

A análise da história recente do homem também mostra que passamos por períodos bem característicos e marcantes: os grandes descobrimentos marítimos, a industrialização e a informática. Entretanto, nesses dois últimos períodos, ocorreu uma lamentável destruição da natureza. Destruição essa, a princípio, pouco percebida e mal avaliada, porém hoje fazendo parte de uma das maiores preocupações de nossa época.

Esse procedimento suicida, alertou alguns observadores que iniciaram o trabalho de conscientização do perigo da degradação ambiental. Dessa forma, nossa sociedade, hoje, pode ser caracterizada pelo avanço extraordinário da informática e pelo início da implantação de medidas de preservação ambiental. Porém, deve-se enfatizar que essas medidas devem ser efetivas e eficazes para atingir o objetivo maior: manter o planeta Terra vivo.

Um jardim zoológico, como entidade preservacionista, também evoluiu muito com o passar dos tempos. Tempos, costumes, cultura e necessidade da época. Assim, os primeiros zoológicos tinham como objetivo a reunião de alguns animais exóticos para alegrar aos reis ou aos poderosos. Pouco mais tarde, esses senhores permitiram que seus animais exóticos, presos em jaulas, fossem apreciados pelo povo.

Dessa etapa ou época empírica, os passos seguintes foram eliminar a jaula e construir recintos mais amplos, com ambientes condizentes com a índole, o porte e o comportamento do animal. Paralelamente, desenvolveram-se os cuidados com a nutrição, a prevenção, a clínica e a reprodução.

Atualmente, pesquizando-se e aperfeiçoando-se esses cuidados, os zoológicos têm como objetivos principais a reprodução dos animais ameaçados de extinção e a educação ambiental.

A formação do especialista

E como se forma um veterinário especialista em animais silvestres?

Até há bem pouco tempo o processo de formação era totalmente baseado no autodidatismo. Isto é, na gradução, um estudante que apresentasse algum pendor para a zoologia e, por esforço próprio, iniciava os estudos sobre biologia, comportamento ou medicina veterinária dos animais silvestres. Mais frequente ainda, era o veterinário recém-formado ou dono de alguma clínica ser chamado para tratar de algum animal silvestre de particular, de circo ou de zoológico. E aí, num esforço, dedicação e coragem ímpares, iniciava os passos em uma nova especialidade...

Entretanto, esse autodidatismo não é o mais correto, nem o mais desejável. Especialmente agora que os conhecimentos de contenção física e química, clínica, cirurgia e medicina veterinária de animais silvestres estão mais desenvolvidos. O desejável e o correto seria algumas escolas de veterinária oferecerem disciplinas obrigatórias e optativas, ligadas ao conhecimento do meio ambiente, já desde o primeiro período. Essas disciplinas iriam ajudar ao jovem estudante definir ou reforçar a sua vocação para a futura especialização. Não seriam disciplinas capazes de promover uma especialização precoce, mas possibilitar, aos que desejarem, se iniciarem desde cedo em atividades ligadas ao conhecimento do meio ambiente e dos animais silvestres. As optativas permitiriam aos interessados aprofundarem um pouco mais os seus conhecimentos, ainda na graduação.

As disciplinas obrigatórias e optativas ligadas ao meio ambiente iriam dar ao profissional um cabedal de conhecimentos básicos para atuar com discernimento sobre as questões ambientais. O veterinário, tendo atuação e poder de decisão importante na saúde animal e na política agropecuária do país, tem que ter conhecimentos para trabalhar em prol da recuperação e preservação ambiental. Tem que saber reproduzir, respeitando e perpetuando as fontes e os elos da cadeia biológica. Esses aspectos deverão ser, de agora em diante, a marca do homem na produção de alimentos, uso da água e produção de energia. Simplesmente não será possível agir diferente e nem haverá outro caminho.

Voltando ao assunto do ensino sobre animais silvestres nas escolas de veterinária, gostaria de sugerir algumas disciplinas, baseadas na experiência adquirida na direção do Jardim Zoológico da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte. Essa proposta foi apresentada ao colegiado de Graduação da Escola de Veterinária que, num exame preliminar, achou-a merecedora de estudo e reflexões.

Os três veterinários do Jardim Zoológico atendem a todos os casos de medicina veterinária preventiva, clínica e cirurgia de mamíferos, répteis e aves (total de 900 animais). Além disso, são responsáveis, também, por estágios oferecidos a estudantes oriundos de diversas escolas de veterinária do país (sempre alunos cursando do 6º período em diante). Assim, a proposta de disciplinas para preparar um veterinário especialista em animais silvestres seria:

1. Graduação

1.1. Obrigatórias:

1.1.1. Ecologia Geral - 40 horas - 1º período

1.1.2. Zoologia (sistemática, anatomia e fisiologia comparada) e Etologia de animais silvestres - 40 horas - 2º período

1.2. Optativas:

1.2.1. Criação, reprodução e manejo de animais silvestres - 40 horas - 4º período

1.2.2. Clínica e nutrição de animais silvestres - 40 horas - 8º período

2. Pós-graduação: Nível de especialização em animais silvestres.

A carga horária desse curso deverá ser em torno de 400 horas, inclusive o estágio em um jardim zoológico, com duração mínima de dois meses. As disciplinas seriam: Anatomia comparada e fisiologia de animais silvestres; Patologia, reprodução e nutrição de animais silvestres; Anestesiologia e métodos de contenção de animais silvestres; Etologia e clínica de animais silvestres; Estágio em jardim zoológico.

Sendo este um tema bastante novo, as idéias acima devem ser entendidas como proposta para aprofundamento da questão, e aí buscar-se a solução mais correta. O autor ficaria muito lisonjeado se recebesse críticas e sugestões que permitissem equacionar melhor o problema.

Deve-se acrescentar que, por razões óbvias, esses cursos de especialização só seriam possíveis em escolas próximas de jardim zoológico ou criador particular de animais silvestres.

A adoção dessas disciplinas, seria, portanto, uma forma de promover a evolução e o progresso; não permitir a repetição da história... E engajar, definitivamente, o veterinário na grandiosa tarefa de reconstruir o planeta Terra e preservar a vida!


(Med. Vet. DAVI PEREIRA NEVES) Professor adjunto/Doutor, aposentado pela UFMG; Autor de 96 trabalhos científicos e de divulgação; Autor de seis livros; Diretor do Jardim Zoológico da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte - Av. Otacílio Negrão de Lima, 8000 Pampulha, Belo Horizonte/MG CEP 31365-450, Fones: (031) 443-1811/498-2279 Tel/Fax (031) 443-1811.